Será também um modo de ser inconformista, que nos faz criticar com gosto, indiferente ao que de bom também temos.
É disto
que o meu povo gosta
Se toda a governação abusa
da propaganda, aqui a propaganda substituiu completamente a governação, que
sobrevive para asfixiar tudo em redor.
ALBERTO GONÇALVES - Colunista do Observador
OBSERVADOR,
19 set. 2026, 00:25
38
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Lembram-se de quando o prof.
Marcelo prometia, pela sua saudinha, não voltar a comentar a actualidade logo
que deixasse Belém? Ele também não se lembra, por isso comenta o que calha a
cada oportunidade. Há dias, esteve num colóquio em Aveiro e disse o seguinte: “Nós
somos a Europa, mas somos vistos como sendo uma ilha no meio do Atlântico. Nós
somos, sobretudo, seguros e confiáveis (…) Encontramos economistas,
financeiros, banqueiros e tal a dizer que grande bigodaça que vocês estão a
dar, porque de facto estão a conseguir, que se possa ter confiança e ter
segurança na realidade portuguesa. Nós já intuímos isso, sabíamos isso. Mas
agora é indiscutível”. E de seguida acrescentou: “Eu vou a qualquer
reunião internacional e agora vou como ‘outsider’ (…) mas gosto de ouvir nos
aviões em que venho dizer, ah, eu desloquei-me agora para Portugal, porque é
para decidir e é para investir numa coisa e tal, e estou a pensar num projecto
e tal.”
É curioso e tal que eu faça
uns voos internacionais e tal e nunca tenha ouvido tais proclamações e tal. É
possível que se deva ao facto de viajar rodeado de pelintras em “turística” e
não de economistas, financeiros, banqueiros e tal. Mas a hipótese mais provável
para não ouvir semelhantes louvores à “bigodaça” portuguesa é os louvores
jamais terem sido ditos, ou apenas terem sido ditos por interlocutores que
desesperadamente procuravam livrar-se daquele sujeito que, inquieto no lugar
12C, dizia em voz demasiado alta ser ex-chefe de Estado e tentava arrancar-lhes
elogios ao país. Como costuma acontecer nos interrogatórios a cargo de polícias
inflexíveis, uma pessoa acaba a confessar o que eles quiserem: “Portugal?”,
despacha atrapalhado o “banqueiro” que na verdade é cabeleireiro de profissão e
retornava das férias em Albufeira, “um espectáculo. Um sonho. A humanidade tem
muito a aprender convosco. E agora peço-lhe desculpa já que tenciono terminar o
‘Barbie’ antes de aterrar em Bruxelas.”
Embora o prof. Marcelo seja um ser peculiar, a essência da
sua recorrente ladainha “patriótica” não difere da quase totalidade dos
primeiros-ministros que temos tido, hoje o dr. Montenegro, ontem o dr. Costa,
uns anos antes o “eng.” Sócrates. Saltei deliberadamente Pedro Passos Coelho na medida
em que, desde épocas imemoriais, foi o único, e aparentemente o último,
governante capaz de confrontar os portugueses com factos. Os
restantes oferecem-nos alucinações, descabeladas mentiras acerca do “sucesso”
pátrio, tão potente que deixa o mundo pasmado e, afinal, invejoso. Salvo a referida excepção, Portugal
não dispõe de estadistas, e sim de vendedores de fancaria. E quanto mais óbvia
é a fancaria mais saída tem. E mais pelintras ficamos. Se toda a governação abusa da
propaganda, aqui a propaganda substituiu completamente a governação, que
sobrevive para asfixiar tudo em redor. Mesmo numa Europa em desvario e
queda, conseguimos a proeza de empobrecer por comparação, a proeza de olharmos
para baixo e já só vermos a Grécia e a Bulgária. Isto enquanto ainda vemos
alguém.
Cá dentro, o que vemos
são embusteiros, socialistas tímidos ou descarados dispostos a atropelar os
habituais limites da intrujice política para transformar o poder numa máquina
de cobrança de impostos, distribuição de empregos, “gestão” dos lendários “fundos”
e, nos intervalos da propaganda, lançamento de humilhantes e falsas esmolas de
modo a mitigar a crise que, eles fiquem ceguinhos, não existe. E
para reduzir os sucessivos governos a monólitos valentemente insusceptíveis de
uma reforma, uma mudança, um rasgo e um risco que beliscassem a desgraceira em
curso e incomodassem as sondagens. Se for necessário descer à ignomínia
da analogia futebolística, à imagem dos nossos eruditos líderes, desço: em equipa que perde não se mexe. Ou
mexe-se para que a equipa continue a perder.
É disto que o meu povo gosta? Corrijo a
pergunta, a fim de evitar generalizações: é disto que uma quantidade significativa de eleitores gosta? Receio que sim. Como no Sísifo de Camus, é preciso
imaginar os portugueses felizes, no mínimo resignados em passar os dias a
contornar rotundas de cidades tristes no regresso do trabalho na câmara ou no
escritório, a caminho de um serão com a Netflix e o sonho do fim-de-semana com
bola e restaurante para fotografar a comida e despejar o pastiche de alegria
nas “redes”. Se
os miúdos estiverem distraídos com o telemóvel e os graúdos esquecidos dos
encargos no fim do mês, que um milagre talvez impeça de chegar, está tudo bem.
Não está nada bem. Claro que não faria sentido sonhar
com a nação pujante e digna de admiração que os embusteiros agitam para consumo
das massas, infelizmente eficaz. Mas podíamos ser, e estar, um
bocadinho melhor do que somos e estamos. Acontece que o processo implicaria tempo, moderado
sofrimento e imensa coragem. Por azar, coragem é o que a classe política não possui e
sofrimento é o que os cidadãos não toleram, nem sequer em nome do “futuro” com
que apenas fingem preocupar-se sob a retórica indolor dos cataclismos vagos ou
longínquos ou fictícios. Tempo é o que nos sobra, incluindo
para recordar o cliché de que vivemos acima das nossas possibilidades. O problema é que jamais nos ocorre
elevar as possibilidades, embora sejamos exímios a adaptarmo-nos a uma vida que
desce – e a torcê-la para disfarçar a descida. Perante a hipótese de, com
sacrifício, “isto” poder ser melhor, consolamo-nos com a suspeita de que, sem
esforço nenhum, isto podia ser pior. É uma hipótese cujo acerto comprovamos ano
após ano.
Governo Política
COMENTÁRIOS
(de 38)
Maria Paula Silva
Excelente
e deprimente!
"o
processo implicaria tempo, moderado sofrimento e imensa coragem",
resumindo o processo, implica que trabalhem! O que falta a Portugal
é decisores e governantes honestos que TRABALHEM.
Do
Luisinho Monte Rosa nem vale a pena falar, o arrogante parolo casmurro está
em queda livre. Nem com os bombons e tostões que oferece antecipadamente pró Natal
se vai safar. Se tiver 2 dedos de honestidade (o que duvido) estará à
beira de se arrepender, se não for totalmente apoucadito, já deve ter percebido
que não tem unhas pra isto.
Quanto
ao MRS, sempre igual a si próprio, fiquei muito admirada (sem encontrar
uma explicação plausível) quando anunciou pouco depois de acabar o 2º
mandato que abdicava da reforma vitalícia de PR. Confesso que andei
perplexa durante meses, pois aquilo não encaixava na personalidade que,
infelizmente, conheço bem demais. Mas a perplexidade desapareceu
quando recentemente li uma notícia (aqui) em que começavam por anunciar as
perdas financeiras de sua excelência (grande truque malabarístico de matemática
mal explicada) do princípio para o fim do seu árduo mandato, mas mais pr`ó fim
lá explicavam, Graças a Deus para a minha perplexidade que desapareceu nesse
instante, o que fazia sua excelência desde que tinha terminado o mandato:
ocupava
um gabinete a 1,2 km do Palácio de Belém, onde mantinha a expensas do Estado as
suas duas secretárias (nomes vinham mencionados), o mercedes não sei das
quantas + o motorista, tudo a expensas do Estado. E onde, se entretinha a
enviar uns emails protocolares (seja lá o que isso for) e a dar uns beijinhos
de vez em quando a outros chefes de Estado, etcetra.
Pronto,
estava explicada a abdicação da reforma vitalícia. No meio do riso
que não conseguia conter, surgia na minha mente, quanto tempo antes ele teria
estado a cozinhar aquela "reforma", a quantas pessoas teria ele dado
a volta, que intrigas teria feito para que a coisa acabasse por lhe ser
oferecida de bandeja. Maganão, quando se nasce aldrabão, morre-se aldrabão.
A
aldrabice maior fez ele com as Gémeas e o teatrinho em se zangar com o filho,
para que este fosse o "cordeiro sacrificado". Agora, tal como eu
previra também, está, como bom católico (ooopsssss....) a tentar
"aproximar-se" do filho. Benzódeus, Nosso Senhor!
É
como dizia Paulo Portas numa entrevista ao Herman, nos anos 90 quando MRS
manifestou publicamente o desejo de ser 1º ministro: "Deus deu-lhe a
inteligência e o diabo deu-lhe a maldade, por isso uma pessoa que mente e me
enganou com a história da Vichyssoise onde tudo era mentira, não pode concorrer
a 1º ministro, é um aldrabão!"
Portanto,
"dizer coisas" é aquilo que sempre fez. O que admira é haver ainda
gente que perca tempo a ouvi-lo. É mais uma das provas da abençoada
pobreza de espírito da maioria que habita este rectângulo. Mas não
deixaria de ser engraçado ver o MRS chegar ao fim da vida a falar para as
paredes rodeado de caixas de gelado e de fortiméis.
Vasco R
Óptimo
artigo. No fim, somos governados por idiotas oportunistas e infelizmente, a
grande maioria dos portugueses gosta e vota nesta gentalha, quanto mais
socialista e esquerdola melhor. Concluindo, a grande maioria dos portugueses são
ignorantes, de uma infantilidade gigantesca, primários a buscar a satisfação
imediata, fatalistas e pouco ambiciosos. Uma miséria franciscana, agravada pela
emigração de quase um milhão de jovens portugueses qualificados e
empreendedores, compensados (sarcasmo intenso) pela escória muçulmana nojenta,
indostânicos sujos e palops, que apesar de melhor se integrarem, são ainda mais
ridiculamente infantis e ignorantes que os portugueses. Espera-nos um futuro
brilhante.
Eduardo Lourenço
Excelente crónica.
Parabéns.
Pedro Correia
Como sempre, excelente.
Muito mal vai a nossa classe política, quando até a Leonor Beleza, diz não
compreender Pedro Passos Coelho. O que pensaria Champalimaud disso?
Liberal do Costume
É
certo que o tuga vota à sua imagem e semelhança, em trafulhas, em
chicos-espertos, em gente superficial. De vez em quando está mais "à
rasca" e lá vai buscar alguém mais sério, para limpar o desastre
precedente, não realmente para mudar alguma coisa de um país que o tuga
considera perfeito. E mesmo para isso é preciso estar muito "à rasca".
observador censurado
Relativamente
a governo e produtividade, recentemente o Canal Now num fim de semana
apresentou-nos uma investigação jornalística sobre um prédio em que os
moradores tinham grandes dificuldades para sair/entrar em casa porque o
elevador estava avariado há 10 anos.
Havia
casos em que moradores em cadeiras de rodas para poderem sair de casa e irem ao
médico tinham de pedir ajuda a amigos que tinham de faltar ao trabalho para
transportar os moradores pelas escadas até ao rés-do-chão.
O
senhorio de todos aqueles moradores (proprietário do prédio) é o Instituto da
Habitação e Reabilitação Urbana, titulado pelo Irmão Miguel Pinto Luz.
Como
o senhorio era o Estado fiquei com curiosidade em saber como os moradores iriam
descalçar a bota porque uma acção contra o Estado demora, em média, pelo menos,
10 anos até que um Tribunal Administrativo titulado pela sra. Júdice emita uma
primeira resposta.
Teria
o advogado do programa uma solução para aquele problema envolvendo vários
ministérios (incluía também o Ministério da Saúde pois a saúde dos moradores
presos em sua casa piorava)? Depois de
espremidas as palavras do advogado, parece-me que a solução seria apelar a
Deus.
MariaPaula Silva > Liberal
do Costume
Muito
obrigada e igualmente.
Mas
não concordo nada em que a AD (por favor, não me insulte nem à memória de Sá
Carneiro) está a limpar seja o que for, mas sim a dar continuidade à
porcaria deixada pelo sô Costinha.
MariaPaula Silva > Liberal
do Costume
tem
razão, não é para mudar, os portugueses odeiam mudanças, é apenas para «limpar
a porcaria" quando ela atinge níveis insuportáveis. Que é o que está a
acontecer agora :)