domingo, 22 de novembro de 2009

Época de fábula

Tenho andado a ler um estudo sobre o existencialismo, que me reconduziu a uma época áurea de leituras gratificantes da juventude - “A Náusea”, “As Palavras” e as peças de teatro de Sartre, “L’Étranger” e “La Peste” de Camus, e a Simone de Beauvoir – oh! a Simone de Beauvoir! – a sua “L’Invitée”, as suas “Mémoires d’une jeune fille rangée”, seguidas de “La Force de l’Âge” – que tanta força de vida inspiravam, mostrando como uma jovem criada no mundo burguês convencional da sua família, se fora pouco a pouco rebelando e ganhando a sua própria liberdade na libertação dos preconceitos que aniquilaram a sua grande amiga Zaza, no gosto absorvente pela vida, na sua relação com Sartre, na criação de uma literatura poderosa na sua escrita despojada de artifícios formais e contudo plena de sinceridade e dignidade no uso da palavra rica e precisa.
L’ Invitée servira-me mais tarde para confrontar a trama existencial do romance “Aparição” de Vergílio Ferreira, de expressão lírica, retórica, jogando com a metáfora e o simbolismo, a personagem central Alberto em dúvida existencial permanente, mau grado os prazeres que lhe confere o seu donjuanismo, em duas relações a três, uma terminada em assassínio, pelo ciumento namorado de Sofia, outra terminada na conversão pela fé da atribulada e estéril Ana, cujo marido, pouco literato mas amante da sua mulher a não deixará fugir, dando-lhe, pelo contrário, para criar, os filhos de um maneta que se suicidara, por não poder semear a terra.
Uma acção realmente pouco expressiva, forma de especular - tão liricamente! - sobre as dúvidas e angústias existenciais – o significado do eu como essência, a problemática da vida e da morte - e simultaneamente de ironizar, pela caricatura desprestigiante, sobre uma sociedade preconceituosa vivendo em pacata cidade alentejana.
L’Invitée”, explorando idêntica problemática existencial, num universo de transfiguração e magia, com personagens densamente reais, o Amor e o Ciúme igualmente figurando como molas de uma acção exaustivamente descrita, para terminar no assassínio, por Françoise, da “convidada” Xavière que viera destruir o seu núcleo de harmonia com Pierre, assassínio assumido, como acto profundamente meditado, escolhendo-se a si própria, dentro da determinante existencialista de responsabilidade própria, sem necessidade de um Deus que justifique ou condene os actos de cada um, na ponderação de que cada homem é aquilo que ele próprio se faz..
Outros mais livros li posteriormente de Simone de Beauvoir, sempre no entusiasmo por uma ficção que, mergulhando na própria experiência, transmite a verdade da vida que cada pessoa reconhece como sua, no seu horror e na sua autenticidade.
São, igualmente, universos de Sartre e de Camus os de um existencialismo – ateu - de assunção dos actos próprios, com maior criatividade romanesca, em todo o caso, que surgiram em aplicação da filosofia alemã e russa, e serviram ao clima de tormenta vivido durante e no após segunda guerra mundial, no sentimento de um efémero cada vez mais efémero e absurdo, que apela à responsabilização pessoal, no egoísmo e na indiferença por valores defendidos pelos mitos sociais da burguesia.
Mas outras filosofias se impuseram. Hoje em dia, no caos criado pelos desequilíbrios sociais, pelos excessos de abundância e progresso em oposição com os excessos da miséria e dos horrores de guerras sucessivas de destruição de gente e do ambiente, predomina a ideologia sem estruturação intelectual do “salve-se quem puder” parolo, e muito especialmente nos países com défice filosófico.
Os escritores existencialistas construíram a sua obra sobre fundamentos da sua filosofia inteligentemente estruturada, de especulação metafísica. Os povos, como o nosso, deficitários quer em valores económicos quer em valores intelectuais, usam o pragmatismo e o sentimento exclusivo do seu pobre ego, sem preocupação com o além, o aquém contando excessivamente, sem contas a prestar, figuras de fábula que os antigos tão bem souberam definir. Estamos na época da fábula.



sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Na Caverna

Hoje, na “Quadratura do Círculo” estavam todos - menos um - muito indispostos com o PM, falando alto. Parece que este tem andado por aí a aldrabar, embora o António Costa, que é do partido, se esforçasse por o defender com unhas e dentes, não só na questão das escutas como de todas as aleivosias de que os invejosos o assacam, sem respeito nenhum pelo seu estatuto, além de que, disse Costa, só quem se considere muito superior em carácter é que pode duvidar do carácter das outras pessoas, coisa que ele, Costa, não faz, donde se depreende que não se considera superior a ninguém em carácter, pelo que não julga nunca o carácter de ninguém.
Espantei-me com a humildade democrática da observação mas duvidei dela, pois não faz senão mandar bitaques aos companheiros de mesa, o que pressupõe que duvida do carácter dos outros, como qualquer pessoa normal, quando verifica que há motivos disso.
O Lobo Xavier também ficou escamado com as alfinetadas de António Costa e respondeu, para exemplificar as aldrabices do PM que, para além de este nunca responder às sucessivas acusações de que é alvo e que já formam uma boa herança para os seus filhos, existia uma certeza a respeito das mentiras de que o poderiam acusar formalmente: na questão da venda da TVI, que chutara os esposos Monis e Moura Guedes, inicialmente ele afirmara não ter conhecimento do caso e mais tarde, apanhado com a boca na botija, foi obrigado a confessar que o soubera particularmente, mas não oficialmente e que particularmente não contava. E Lobo Xavier considerou que esta mentira confessa abonava todos os outros casos de que era acusado, o que não abonava era o carácter do PM, e isso irritou Costa.
Falou mesmo – Lobo Xavier – em jogo de sombras chinesas, ou jogo chinês de sombras e, embora eu também saiba fazer cãezinhos de sombra nas paredes com as mãos, bem irreais mas muito engraçados, logo me lembrou o mito da caverna socrático-platónica, das sombras que os condenados viam nas paredes dela, resultantes do foco da fogueira por trás de quem passava, responsável por essas tais sombras nas paredes frontais que os condenados se habituaram a considerar reais, por serem a sua única realidade visível, afinal manipulada. Assim somos todos nós, manipulados e ignorantes, que acreditamos nas sombras como única realidade, embora sejam mentiras projectadas pelo foco luminoso PM.
Também Pacheco Pereira se manifestou a favor de Lobo Xavier, afirmando não se tratar de animosidade pessoal, mas que era condenável a insistência na mentira, condenável, portanto, o PM, que assim insiste e promete continuar.
Por mim, já não condeno. Desde que fui crédula relativamente a Manuela Ferreira Leite, como garante de reformas possíveis, uma das quais a do Estatuto da Carreira Docente e vi como o PSD, que fora a favor do rasgar de propostas do PS, entre as quais o tal Estatuto, se abstivera na votação das propostas educativas do CDS-PP, deitando por terra as perspectivas de mudança de um processo educativo indecoroso, e as ilusões de milhares de professores, num traidor rebaixamento ao PS, sugerindo outras deslealdades para com o país que neles confiou, já não condeno o PM nas suas mentiras.
Vivemos na caverna. E temos muitos projectores de sombras na nossa realidade.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Honestidade, a maior das vergonhas

Falávamos nos casos em julgamento, em todos aqueles que são responsáveis pelo clima, dos pioneiros na criação desse clima, que até têm Fundações sem que se lhes veja proveito e que são pagas religiosamente pelas Câmaras, sem que se lhes diga que isso também é uma forma de sugar, de corromper, de convidar outros a usarem de falcatrua, de artimanhas, de dilapidação contínua, e mais outros e outros, e cuja publicidade feita pelos media, deixa os tais pioneiros indignados pelo clima de corrupção identificada, identificação que os pode atingir também um dia, quando lhes passar a aura sob a qual se têm resguardado como salvadores da pátria, na realidade como seus destruidores, aproveitadores da cegueira dos que se alimentam de falácias papagueadas a demonstrar que leram uma qualquer cartilha informativa de proveito próprio.
Falei em seriedade, em honestidade, como valor ético em vias de extinção.
- Oh! A honestidade é a maior das vergonhas!
Isto considerou a minha amiga e sobressaltei-me, julgando que estava a pôr em descrédito a minha idoneidade moral:
- O quê?
- Pois! Temos que esconder a cara, se queremos apregoar moral. Isso não existe. Ainda vai presa.
- Não é assim, claro. Felizmente há muita gente séria entre nós. Mas é preciso repolitizar a escola e a família, em termos de disciplina mental e moral. Doutra forma, a sociedade vai cada vez mais descambando em charco pútrido, de papões sem escrúpulos engolindo os parolos, na sua perspectiva omnisciente, que lhes dá a imoralidade omnipotente.
- O pior é que alastra o desemprego, com o alastrar desse clima. Está na ordem do dia. Não sei como se resiste!
- E já viu o jogo de interesses que está por trás da ameaça de pandemia da gripe A? Ao pé de tais enormidades de laboratórios e farmácias, os nossos “jogadores” não passam de uns anjinhos bem vestidos. E a vacina pode ser fatal. Recebi um email com o discurso aterrador da ex-ministra da Finlândia alertando para as intenções de extermínio da humanidade, nessas ameaças de sucessivas variedades gripais, que começam por avisos e acabam em vacinas, distribuídas, no que toca à Gripe A, em quantidades já monstruosas, depois do prévio alastrar de pânico mundial.
- É o que eu lhe digo! A honestidade é a maior das vergonhas! E a nível global, não devemos ser egoístas.